Milton Santos: O Mundo Global Visto do lado de cá – Documentário Completo e Resenha.

Publicado: agosto 22, 2013 em Atualidade, Didático, História, Política, Resenhas, Teoricos
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FICHA TÉCNICA:
Título: Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá
Lançamento: 2007 (Brasil)
Direção: Sílvio Tendler
Duração: 89 min
Gênero: Documentário

RESENHA por David Rejes Rangel

O filme Encontro com Milton Santos – O MUNDO GLOBAL VISTO DO LADO DE CÁ de Silvio Tendler recupera parte da visão do importante geógrafo brasileiro.  Traçando um panorama geral do mundo, principalmente na relação entre os grandes centros econômicos e políticos em contraste com a periferia mundial, o diretor delineia aspectos urgentes das reflexões de Milton Santos para a transformação da situação vigente. Parte portanto de uma crítica já quase abandonada e inquestionada pela maioria dos intelectuais, insistindo necessariamente na questão da luta por um mundo mais justo. Essa crítica, apesar de periférica é urgente fundamentalmente para os que não possuem meios para fazerem-se ouvir, pois apesar de presentes nas ruas das grandes capitais e nas periferias, já não despertam solidariedade pelos que passam ao seu lado dia a dia.

Desconstrói portanto o mito da Globalização. Mito de que a integração comercial entre os países e o aumento tecnológico vivido nas últimas décadas trouxe satisfação das necessidades do homem. A necessidade que deveria ser combatida pela tecnologia é resultado de uma desigualdade cada vez maior, fruto da acumulação de capital possibilitada por essa tecnologia e integração comercial.

Nesse processo de desconstrução do mito da Globalização, o diretor, demonstrando o pensamento de Milton Santos, discute a aplicação prática do Consenso de Washington que se tornou a cartilha para a maioria dos países da América Latina, principalmente com as privatizações, a abertura para as multinacionais, que geraram subempregos combinados com um massivo desemprego.

Não obstante, trata ainda da urgente questão da fome, tema hediondo para um mundo que se considera civilizado e que assiste com indiferença o grande problema para a humanidade. Nesse sentido, assevera ser a questão da fome um problema de distribuição, e não de produção, isto é, não é necessário produzir mais alimentos, pois o produzimos em abundância, muito mais que consumimos, a questão é a distribuição desses alimentos que se concentram onde há abundância e não chegam onde há escassez. Milton Santos afirma que a questão da fome é uma escolha da humanidade, por convivermos tanto tempo com essa situação e não termos transformado essa situação.

A questão da privatização da água é outro tema de importante discussão, visto que há um esforço mundial de multinacionais pela privatização desse recurso natural indispensável ao homem, sem pensar do bem estar da humanidade, apenas buscando novos mercados que possibilitem acumular mais e mais capital.

Esse capital que tem seu livre tráfego defendido, assim como produtos e serviços, mas que restringe violentamente com mortes diárias o tráfego de pessoas entre os países fugindo da miséria em busca de um sonho no qual suas necessidades são supridas.

Nesse nosso modo de produção, o homem deixa de lado o antropocentrismo, abnega sua posição de centro do mundo, para dar lugar ao dinheiro, ao capital em seu estado puro. Essa nova forma de organizar o mundo que vem sendo implantada á algumas décadas é massivamente imposta pela ideologia vinculada a mídia.

Nesse setor, seis empresas controlam noventa por cento do mercado de mídia mundial. Isso resulta num controle quase exclusivo da mídia por um grupo pequeno de grandes empresários, que detém o monopólio da informação.

Essa informação vem ao povo, ao trabalhador empregado ou desempregado, estabelecido ou marginal, como notícia. Essa notícia muitas vezes é recebida como verdade, sem desconsiderar os interesses por parte dos transmissores. Ignora-se o processo de transformação do fato em notícia que resulta da interpretação do fato em si, tanto em níveis inconscientes quanto em níveis conscientes de forma inevitável.

Dado o fato de que essas notícias são criadas através da interpretação dos fatos por empresas que detém o monopólio da informação, resulta-se que as notícias carregam os interesses dessas empresas e dos empresários.

Controlando então a informação, esses empresários que estão na maior parte das vezes vinculados também á outros setores da indústria, dos serviços e do comércio, controlam o que chega ao trabalhador exercendo certo domínio do que se pensa.

Globaritarismo, conceito de Milton Santos designa justamente essa forma imposta de enxergar o mundo segundo a visão da mídia que tem interesse em reproduzir e aprofundar esse processo predatório de exploração mundo e das pessoas por um pequeno grupo de empresários.

O mundo então, não poderia ser analisado como uma unidade, mas de forma a melhor compreende-lo, poderíamos vê-lo como um grupo, mais especificamente um trio:

1) um mundo tal como nos fazem vê-lo, a globalização como fábula.

Esse mundo é o que nos é apresentado pelo monopólio midiático que nos informa segundo seus próprios interesses, quase sempre contrários ao da maioria da sociedade.

2) um mundo tal como ele é, a globalização tal como perversidade.

Esse mundo que Silvio Tendler tenta mostrar segundo a ótica de Milton Santos, nesse lúcido e urgente filme.

3) um mundo como ele pode ser, uma outra globalização.

Que é o mundo sonhado, desejado, e objeto da luta de Milton Santos durante sua vida. Um mundo que tem todas as capacidades técnicas e humanas para se reorganizar segundo o interesse e necessidade da maioria das pessoas.

E para fechar a análise do filme, encerramos com as palavras de Milton Santos quando questionado sobre a humanidade: “Estamos fazendo os ensaios do que será a humanidade. Nunca houve”.

(Licença Creative Commons)

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