Posts com Tag ‘corporações’

Nas fábricas e indústrias são produzidas mercadorias úteis naturalmente (necessidade inata) ou artificialmente (necessidade socialmente produzida) ao homem. Na maior parte das fábricas, o local, as máquinas, ferramentas e matéria-prima, etc., são de uma pessoa ou um pequeno grupo de pessoas chamados BURGUESES e sua classe a BURGUESIA. Esses meios pelos quais se produz a mercadoria, (galpão, máquinas, ferramentas, matéria-prima, etc.) são chamados de MEIOS DE PRODUÇÃO.

Quem trabalha para produzir a mercadoria são os OPERÁRIOS. Eles não tem os meios de produção, apenas sua força de trabalho, que vendem para o patrão (BURGUÊS) em troca de salário. Sua classe composta de assalariados é chamada de PROLETÁRIOS.

No dia a dia, entretanto, a convivência nem sempre é harmoniosa. BURGUESESOPERÁRIOS tem objetivos distintos e na maior parte das vezes, antagônicos (contrários). O objetivo dos burgueses é acumular capital (concentrar dinheiro ou meios de produção) e o objetivo dos operários é terem melhores condições de vida (moradia, alimentação, saúde, lazer, etc.). Dessa forma, para que o BURGUÊS pague maiores salários e forneça melhores condições de vida para os operários, ele tem de ir radicalmente contra o seu PRINCIPAL objetivo de acumular riquezas. Os OPERÁRIOS por sua vez, para conquistarem melhores condições de vida, devem exigir melhores condições por meio da LUTA DE CLASSES em sua forma mais imediata.

Com o decorrer do processo histórico, desde o início da industrialização, tanto a BURGUESIA quanto o PROLETARIADO perceberam que para melhor defender seus interesses contrários uns aos outros, deveriam fazê-lo de forma coletiva.

A BURGUESIA criou seus órgãos de defesa de seus interesses, enquanto os OPERÁRIOS passaram a se reunir também para discutir seus problemas, definir estratégias e táticas para atingir seus objetivos criando o MOVIMENTO OPERÁRIO. Com o amadurecimento de suas lutas a partir da própria experiência, os OPERÁRIOS perceberam que não bastava apenas reivindicar melhores salários. Era necessário tomar controle dos MEIOS DE PRODUÇÃO.

O grande problema é que a BURGUESIA, classe que explora o PROLETÁRIADO, jamais abriria mão da sua riqueza e do seu poder construído com o suor dos OPERÁRIOS. Ambas as classes perceberam que isso só poderia se dar por meios revolucionários, ou seja, à força, e que tomando o controle dos MEIOS DE PRODUÇÃO, o poder da burguesia seria destruído e toda a riqueza produzida pela sociedade poderia ser reinvestida e assim distribuída entre a sociedade. À esse sistema no qual a os MEIOS DE PRODUÇÃO são coletivos (de todos) e a riqueza criada por eles é compartilhada pela sociedade, deu-se o nome de SOCIALISMO.

Desde então, a história da humanidade vem sendo a história da luta entre a BURGUESIA e os TRABALHADORES (proletários). Os TRABALHADORES em luta desenvolvendo sua CONSCIÊNCIA DE CLASSE na luta diária para TRANSFORMAR a sociedade, enquanto a BURGUESIA tenta com todos os seus esforços REAGIR contra essa transformação social e contra essa tomada de CONSCIÊNCIA por parte dos TRABALHADORES.

Assista o vídeo abaixo:

Leia agora o manifesto dos trabalhadores da fábrica FLASKÔ:

Manifesto 10 Anos de Fábrica Ocupada Flaskô

Em 12 de junho de 2003, nós, trabalhadores da Flaskô, decidimos tomar nosso presente em nossas mãos, decidimos alterar o destino que o capitalismo e os patrões nos empunham. Nós decidimos tomar a fábrica e coloca-la sob o controle dos próprios trabalhadores. Marchamos nestes dez anos defendendo a palavra de ordem “Fábrica quebrada é fábrica ocupada, e fábrica ocupada deve ser estatizada e colocada sob controle dos trabalhadores”.
A força que nos moveu foi a mesma que nos fez suar de sol a sol, durante nossa vida, vendendo nossa energia para rodar as máquinas do capitalismo e com isso receber um salário para comer, morar e criar nossas crianças. Mais do que isso, a força que nos moveu foi a necessidade de acabar com o horror que vivíamos e também o conjunto de nossa classe.
Porém, em 12 de junho de 2003, nossa força estava animada também com a certeza de que um período havia que se esgotar. O período em que tudo estava organizado somente para o interesse dos patrões. Foi esta esperança, que, naquele momento, se materializava a vitória de Lula. Tendo ele como presidente, nos dava uma coragem ainda maior para irmos em frente. Éramos mais de trezentos que participavam da assembleia que realizamos naquele dia. Éramos uma força que havia tirado os trilhos da história do seu caminho.
E por isso decidimos reconstruir tudo. Assim, ocupamos a fábrica e nos articulamos para garantir o direito ao trabalho, nossa principal forma de dignidade. Para tanto, só havia um caminho, avançar para tomar as fábricas dos patrões, reorganizá-las de acordo com os interesses de nossa classe, de acordo com os interesses mais gerais da humanidade – a vida e a solidariedade entre os próprios trabalhadores, uma vida sem exploração. Organizamos, a partir daí, uma nova fábrica para se trabalhar. Nos unimos aos sem terra para lutar por reforma agrária e o pelo fim do latifúndio. Gritamos: “Quando o campo e a cidade se unir a burguesia não vai resistir”.
Da mesma forma, nos solidarizamos com todo o povo trabalhador explorado, impulsionando a luta pela moradia. Decidimos começar a unir convicção e ação a partir do terreno do patrão que durante décadas sugou nossa vida. Tomamos o terreno, e construímos a Vila Operária, onde vivem hoje 564 famílias. Assim como impulsionamos o projeto Fábrica de Cultura e Esporte, com centenas de atividades realizadas, envolvendo o conjunto da comunidade, com crianças, jovens e adultos, garantindo acesso à cultura, lazer, etc.
Justamente por isso, a cada passo que avançamos, um estalo maior vinha de nossos inimigos – os patrões e seus representantes nos governos, inclusive no governo Lula. Quando avançava a campanha em apoio ao governo Venezuelano, a FIESP se levantou contra nós, convocando os empresários a se mobilizarem contra nossa luta. Quando iniciamos o trabalho de articular as fábricas tomadas na America Latina, a OMC interviu e tentou impedir que esta unidade avançasse.
Em 2007 eles decidiram nos atacar. Mais de 150 policiais federais tomaram a Cipla e Interfibra, ambas então ocupadas em Santa Catarina, expulsando os trabalhadores e empossando um interventor reacionário para realizar os ataques contra as conquistas sociais, legais e humanas que 5 anos de controle operário havia garantindo. É por isso que disseram expressamente na sentença judicial o que realmente eles tem medo: “Imagine se a moda pega?”.
Para tanto, contaram com a tática da criminalização, com uma campanha de calúnias e tentativas de nos deslegitimar perante o conjunto da classe trabalhadora. Obviamente, usaram o monopólio dos meios de comunicação para seus objetivos. A revista Veja afirmou que somos “o MST das fábricas”. Ótimo, é um orgulho!
Porém, nós, poucos, mas valentes trabalhadores da Flaskô, decidimos resistir. E com a força e a solidariedade que recebemos de todo o Brasil e do Mundo, unindo as centrais sindicais as mais diversas, os partidos políticos num amplo espectro, sempre sob a perspectiva de frente única, compreendendo cada passo a ser dado diante da dinâmica da luta de classes. Se por um lado nunca podíamos garantir quanto tempo duraríamos, por conta da cotidiana instabilidade, é certo que tínhamos a certeza que ganharíamos. Porque sabemos que só teríamos a perder nossas correntes e ganhar uma esperança de vitória.
Hoje completamos 10 anos. Passaram-se os dois governos de Lula. E qualquer sombra de caminhar ao socialismo que poderíamos pensar existir nesse governo se esvaiu no ar. O primeiro governo Lula se recusou a encontrar uma solução, mesmo diante das diversas propostas que apresentamos, por meio da reivindicação da estatização sob controle operário, ou mesmo diante da proposta que o BNDES apresentou. Lula dizia que essa pauta não “estava no cardápio”. Mas vimos que o cardápio para os trabalhadores, de fato, era diferente dos grandes capitalistas, já que o mesmo estudo do BNDES foi usado para ação do governo em relação à Aracruz Celulose, JBS FriBoi, Grupo Votorantim, etc. O segundo governo decidiu atacar nosso movimento, sujando suas mãos ao criminalizar a luta dos trabalhadores, e empurrar a luta das fábricas ocupadas para morrer enfraquecida.
O governo Dilma até o momento trabalha para impedir que os projetos de leis que apresentamos no Senado prosperem. Como já demos publicidade e conhecimento, ressalta-se que são dois projetos: um desapropria a fábrica transformando em propriedade social controlada pelos trabalhadores e outro projeto permite que toda fábrica abandonada ou falida seja desapropriada e repassada aos trabalhadores para uma gestão democrática.
Por isso, nestes dez anos decidimos, mais uma vez, ir à ofensiva. Decidimos retomar com força a pressão sobre o governo Dilma/PT, e sobre o Senado Federal, para que aprovem imediatamente a declaração de interesse social para fins de desapropriação da Flaskô. Trata-se de uma decisão política, proporcionando um instrumento efetivo para a luta operária.
E temos a certeza que podemos ganhar porque não se trata de apenas uma fábrica resistindo contra o capitalismo, mas uma fábrica ocupada, resistindo na defesa das pautas históricas da classe trabalhadora em direção ao socialismo. É o que podemos ver no encontro de hoje, onde estão presentes, em grande demonstração de unidade de classe, várias representações internacionais, diversas organizações populares (do campo e da cidade), dezenas de sindicatos e representações estudantis.
A importância é ainda maior diante de uma conjuntura bastante interessante, de crise do capitalismo, ascenso das massas, rearticulação dos movimentos sociais em todo o mundo, inclusive, agora, chegando mais diretamente no Brasil. A burguesia precisará reprimir, criminalizar, mas as contradições ficarão cada vez mais evidentes, e somente deixará mais evidente a necessidade de construção de outra sociedade, não mais fundada na exploração da força de trabalho.
Sabemos que não há socialismo num só país, muito menos sobreviverá somente uma fábrica ocupada, isoladamente. Por isso, como demonstramos nesses 10 anos, somente a unidade de classe, inclusive para além das fronteiras nacionais, poderá dar uma saída real para a luta da classe trabalhadora em direção à transformação dessa sociedade.
Assim, a luta continuará, e precisamos de toda a solidariedade de classe que fez com que a Flaskô ficasse aberta até hoje. Nesse sentido, convocamos todos aqueles comprometidos com a luta da classe trabalhadora por sua emancipação, para que se junte conosco nas lutas e batalhas que serão travadas no próximo período, convidando, desde já, para a Caravana à Brasília em 23 de outubro de 2013, para realização de uma Audiência Pública onde discutiremos os referidos projetos de lei e as perspectivas para as fábricas ocupadas e a garantia das conquistas sociais da classe trabalhadora.

Viva os 10 anos da Fábrica Ocupada Flaskô!

Viva a solidariedade internacional da classe trabalhadora!

Sumaré/SP, Brasil, 15 de junho de 2013.

Assinam essa carta, todos os trabalhadores da Flaskô e todas as entidades e organizações presentes neste encontro, aprovada por unanimidade
Maiores informações veja em http://www.fabricasocupadas.org.br

Exercícios de Fixação:

  1. O que são os meios de produção?
  2. Quem são os operários? Qual seu papel na produção? Quais são seus interesses?
  3. Quem são os burgueses? Qual seu papel na produção? Quais são seus interesses?
  4. No geral, a quem favorece a situação atual? A quem interessa manter e a quem interessa destruir a ordem das coisas?

Exercícios de Interpretação:

1. Interprete as imagens abaixo, e relacione com o vídeo e o texto:
a)819184_325250980924802_1463245444_o
b)
OgAAAFrcZU_RfvTlVnAgHgQXTq6tFb-OY20KUFisc4legoS8oAeCLN1443LB91qJSirOveNf6vn-GnGdPIiiFyNMpLAAm1T1ULluCQG6rJLnS-6houfTPrwu647X
c)
73558_418112871642567_1883686776_n
2. Os operários da fábrica Flaskô tiveram e continuam tendo muitas dificuldades em manter a fábrica hoje ocupada, por não ter acesso à financiamentos e crédito. Na sua opinião, as dívidas do do antigo patrão (burguês) seria o único empecilho junto aos credores?
3. Mesmo com todas as dificuldades, os operários conseguiram reduzir a jornada de trabalho para 30 horas semanais. Trabalham 6 horas por dia e dessa forma possuem mais tempo para ficar com a família, fazer cursos ou debater assuntos da comunidade. Porque você acha que essa fábrica conseguiu reduzir tanto a jornada de trabalho sem redução de salário, o que em outras fábricas parece impossível?

Para aprofundar:

1175123_606453562739631_2086386747_n

O texto do Clube Militar repõe algumas verdades históricas sobre a participação da famiglia Marinho no golpe e também na ditadura, mas revela todo o rancor dos golpistas

04/09/2013

 

Altamiro Borges

 

O artigo de O Globo que admitiu, finalmente, que foi “um erro” o apoio do jornal ao golpe de 1964 continua causando curiosas reações. Nesta terça-feira (3), o Clube Militar, que reúne os “milicos de pijama” saudosos da ditadura, divulgou em seu site uma dura nota contra “a covardia do último grande jornal carioca”. O texto, assinado pelo general de divisão Clóvis Purper Bandeira, assessor da presidência da entidade, repõe algumas verdades históricas sobre a participação da famiglia Marinho no golpe e também na ditadura, mas revela todo o rancor dos golpistas. Vale conferir:

*****

Equívoco, uma ova

 

Numa mudança de posição drástica, o jornal O Globo acaba de denunciar seu apoio histórico à Revolução de 1964. Alega, como justificativa para renegar sua posição de décadas, que se tratou de um “equívoco redacional”.

Dos grandes jornais existentes à época, o único sobrevivente carioca como mídia diária impressa é O Globo. Depositário de artigos que relatam a história da cidade, do país e do mundo por mais de oitenta anos, acaba de lançar um portal na Internet com todas as edições digitalizadas, o que facilita sobremaneira a pesquisa de sua visão da história.

Pouca gente tinha paciência e tempo para buscar nas coleções das bibliotecas, muitas vezes incompletas, os artigos do passado. Agora, porém, com a facilidade de poder pesquisar em casa ou no trabalho, por meio do portal eletrônico, muitos puderam ler o que foi publicado na década de 60 pelo jornalão, e por certo ficaram surpresos pelo apoio irrestrito e entusiasta que o mesmo prestou à derrubada do governo Goulart e aos governos dos militares. Nisso, aliás, era acompanhado pela grande maioria da população e dos órgãos de imprensa.

Pressionado pelo poder político e econômico do governo, sob a constante ameaça do “controle social da mídia” – no jargão politicamente correto que encobre as diversas tentativas petistas de censurar a imprensa – o periódico sucumbiu e renega, hoje, o que defendeu ardorosamente ontem.

Alega, assim, que sua posição naqueles dias difíceis foi resultado de um equívoco da redação, talvez desorientada pela rapidez dos acontecimentos e pela variedade de versões que corriam sobre a situação do país.

Dupla mentira: em primeiro lugar, o apoio ao Movimento de 64 ocorreu antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango; em segundo lugar, não se trata de posição equivocada “da redação”, mas de posicionamento político firmemente defendido por seu proprietário, diretor e redator chefe, Roberto Marinho, como comprovam as edições da época; em segundo lugar, não foi, também, como fica insinuado, uma posição passageira revista depois de curto período de engano, pois dez anos depois da revolução, na edição de 31 de março de 1974, em editorial de primeira página, o jornal publica derramados elogios ao Movimento; e em 7 de abril de 1984, vinte anos passados, Roberto Marinho publicou editorial assinado, na primeira página, intitulado “Julgamento da Revolução”, cuja leitura não deixa dúvida sobre a adesão e firme participação do jornal nos acontecimentos de 1964 e nas décadas seguintes.

Declarar agora que se tratou de um “equívoco da redação” é mentira deslavada.

Equívoco, uma ova! Trata-se de revisionismo, adesismo e covardia do último grande jornal carioca.

Nossos pêsames aos leitores.

Em editorial histórico, Globo reconhece que errou ao apoiar o golpe militar de 1964, mas diz que outros veículos de comunicação, como Folha e Estado, fizeram o mesmo; mea culpa acontece um dia depois de jovens atirarem esterco na emissora

Quase 50 anos após o golpe de 1º de abril de 1964, quando os militares derrubaram o governo democraticamente eleito de João Goulart e deram início a 21 anos de ditadura, o jornal O Globo reconheceu que dar apoio ao golpe foi um erro. Na apresentação do texto redigido para o site “Memória”, que conta a história da publicação carioca, O Globo admite ser verdade o teor do coro usado como bordão nas manifestações de junho: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”.

O jornal afirma que a decisão de fazer uma “avaliação interna”, contudo, veio antes das manifestações populares. Mas “as ruas”, afirma O Globo, “nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário”. O matutino carioca diz ainda que “Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas” e diz que a publicação do texto com o reconhecimento do erro reafirma “nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos”.

No texto do “Memória”, o jornal começa fazendo um contexto histórico da época e mostra que não foi o único jornal a dar apoio editorial ao golpe de 64, coisa que fez “ao lado de outros grandes jornais”. O carioca da família Marinho cita os jornais “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”. O texto afirma, ainda, que não foram apenas os jornais a conceder apoio aos militares, mas “parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais”.

editorial globo ditadura militar
Editorial de O Globo em 1964 (Arquivo)

Ao mesmo tempo, contudo, em que afirma que o apoio foi um erro, o jornal também adota o mesmo argumento dos militares na época para sustentar e legitimar o golpe: que a intervenção se “justificava” pelo temor de um suposto golpe a ser feito pelo então presidente João Goulart, “com amplo apoio de sindicatos” e até de “alguns segmentos das Forças Armadas”. Um dia antes do golpe, o jornal diz que teve sua redação invadida por fuzileiros navais aliados a Jango e que, por isso, o jornal não circulou no dia 1º de abril. Só voltaria às ruas no dia seguinte, desta vez estampando em seu editorial o famoso texto intitulado “Ressurge a Democracia”.

O Globo dá a entender que se sentira enganado pelas promessas dos militares de intervenção “passageira, cirúrgica” e que, “ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda”, o poder voltaria aos civis por meio de eleições diretas. Em seu mea culpa, o jornal também reconhece que a expressão “revolução” foi usada ao longo de anos pelo jornal, justamente porque diz acreditava que a situação seria temporária. Ainda assim, o jornal ameniza o discurso ao falar de Roberto Marinho, o patrono do jornal, o qual afirma que sempre esteve “ao lado da legalidade”.

O jornal defende que Marinho “sempre se posicionou com firmeza contra a perseguição a jornalistas de esquerda”, e que “fez questão de abrigar muitos deles na redação do GLOBO”. O texto diz que Roberto Marinho acompanhava pessoalmente os depoimentos dos funcionários “para evitar que desaparecessem” e que, “de maneira desafiadora”, sempre se negou a repassar aos militares a lista de funcionários “comunistas”.

Por fim, apenas 49 anos depois do golpe e uma década após a morte de Roberto Marinho, O Globo admite o erro: “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

30/8/2013 13:25
Por Redação – de São Paulo

 

Lula(C) recebe um prêmio das mãos de João Roberto Marinho, em 2004Lula recebe um prêmio na presença de João Roberto Marinho(E), em 2004

A pauta do recente encontro entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente das Organizações Globo João Roberto Marinho, confirmado pela assessoria do Instituto Lula, vazou nesta sexta-feira em um blog na internet e revela o desespero da maior organização midiática de ultradireita na América Latina com a força das manifestações de rua, que cobram o fim do monopólio nas comunicações e o pagamento de impostos devidos pela emissora à Receita Federal. Pressionada por mais um protesto, convocado para esta sexta-feira, em frente às suas instalações, na capital paulista, e pela queda no faturamento devido ao aumento significativo da audiência na internet, a empresa visava o abrigo de um dos maiores ícones das esquerdas no país.

Segundo o titular do blog Conversa Afiada, o jornalista Paulo Henrique Amorim (PHA), Marinho “foi ao Presidente Lula pedir ajuda contra o Google”. Citando fonte, o também apresentador de um jornal noturno na Rede Record, principal adversária da Rede Globo na TV aberta, afirmou que “a publicidade está numa situação tal que pode provocar uma crise” no setor, que reúne a mídia conservadora no país e é conhecido, por sua atuação política, como Partido da Imprensa Golpista (PIG). Seu interlocutor não disse, mas “imagina-se que o Lula deva ter achado ótimo”, comentou o colunista.

Depois de culpar o Google, maior mecanismo de buscas e difusor de publicidade na web, no mundo, pela queda na arrecadação dos veículos de comunicação que controla no país, segundo PHA, “filho do Roberto Marinho – segundo esse passarinho inconfidente – passou a ‘espinafrar’ a Dilma. Que a Dilma isso, que a Dilma aquilo, e, além do mais, a Dilma não o recebe – não recebe o filho do Roberto Marinho”.

“E, aí, amigo navegante, a bomba! O filho do Roberto Marinho pediu ao Lula para voltar. ‘Volta, Lula, volta, pelo amor de Deus! Mas, como? indagou o Lula”, segundo a fonte.

– Vocês me espinafraram todo dia e você vem aqui me pedir para voltar? – teria questionado o ex-presidente

– Mas, você é diferente, Lula, respondeu o filho do Roberto Marinho. Você é um estadista – disse João Roberto Marinho, segundo o jornalista.

“O filho do Roberto Marinho foi embora sem uma gota de esperança”, acrescenta PHA. Após a saída do visitante, Lula teria comentado com a fonte:

– Esses caras me esculhambam o tempo todo e agora querem que eu volte. Ora, vai …

Temor justificado

Ainda segundo PHA, Marinho tem razões de sobra para estar assustado com o crescimento do Google no país. Recentemente, a agência norte-americana de publicidade Omnicom, a segunda do mundo, associou-se à francesa Publicis para se tornar a primeira do mundo, em uma tentativa de enfrentar o Google, que se tornou, de fato, a maior agência mundial de publicidade. “O Google é o maior destinatário de publicidade do Brasil, depois da Globo”, constata PHA. Atualmente, segundo projeções de analistas do setor, a internet detém 15% da verba de publicidade do Brasil mas, na próxima década, chegará aos 50%. O Google paga em dólares aos proprietários dos sites na internet e, na soma de publicidade no Google, no Youtube e Twitter, a conta já se aproxima do faturamento da Globo. Sem os 75% a 80% do mercado publicitário na tevê aberta, como ocorre hoje no Brasil, o modelo de negócios da Globo naufraga, segundo PHA.

“Não tem como pagar US$ 300 mil de capítulo de novela, três novelas no ar, novas, por dia, 365 dias por ano. Nem R$ 15 milhões por mês de salário a atores que não estão no ar. Um dia, o SBT e a Bandeirantes procuraram o presidente Fernando Henrique (…) para que o capital estrangeiro entrasse na indústria da tevê brasileira”, lembra o jornalista. FHC, diante do pedido, teria dito a um diretor da Band que ele próprio não tinha como enfrentar a Globo, que eles fossem ao Congresso lutar por isso.

“Quando a Globo quebrou, ela precisou de capital estrangeiro no cabo e o FHC deu. Quando o presidente Lula assumiu, a Globo estava quebrada. O PT poderia, ali, quebrar a espinha da Globo. O Ministro Palocci, de inúmeros serviços prestados ao neolibelismo pátrio e à indústria de supermercados salvou a Globo. Foi ali que a Globo começou a sonegar Imposto de Renda. E até hoje não mostrou o DARF (recibo do pagamento dos impostos devidos em um rumoroso processo judicial que monta cerca de R$ 1 bilhão)”, escreveu o jornalista.

Concentração absurda

A própria Secretaria da Comunicação (Secom) da presidência da República, responsável pelo investimento publicitário das verbas do governo federal, autarquias e empresas estatais, publicou recentemente um texto no qual questionava as críticas realizadas por pequenas empresas de comunicação e empreendedores individuais, entre eles blogueiros, acerca dos seus critérios na aplicação dos recursos públicos em publicidade. Não ficou sem resposta. A associação dessas pequenas empresas de comunicação, com representatividade em todo o país (Altercom) tem defendido os interesses da sua base e proposto entre outros pontos que se estabeleça como política a destinação de 30% das verbas publicitárias às pequenas empresas de comunicação. Pratica adotada em outros setores da economia, como na compra de alimentos para a merenda escolar. E também em outros países onde a pluralidade informativa é obrigação do Estado, inclusive do ponto de vista do financiamento.

Leia, adiante, a nota da Altercom:

“Em nome da qualidade do debate democrático, a Altercom utilizará os números do estudo divulgado pela Secom para defender sua tese de que a política atual do governo federal está fortalecendo os conglomerados midiáticos, não garante a pluralidade informativa e mais do que isso não reflete os hábitos de consumo de comunicação e informação do brasileiro. Tem como única referência os parâmetros das grandes agências de publicidade e seu sistema de remuneração onde o principal elemento é a Bonificação por Volume (BV).

A partir disso, seguem algumas observações que têm por base os números do estudo publicado e assinado pelo secretário executivo da Secom.

– Em 2000, ainda no governo FHC, o meio televisão representava 54,5% da verba total de publicidade que era de 1,239 bilhão. Em 2012, esse percentual cresceu para 62,63% de uma verba de 1,797 bilhão. Ou seja, houve concentração de verba em TV mesmo com a queda de audiência do meio e o fortalecimento da internet.

– Em 2011, os grandes portais receberam 38,93% das verbas totais de internet. Em 2012, os grandes portais passaram a receber 48,57% deste volume. Mesmo com a ampliação da diversidade na rede a Secom preferiu a concentração de recursos.

– Também de 2011 para 2012, a Rede Globo aumentou sua participação no share de Tvs. Saiu de 41,91% em 2011 para 43,98% no ano passado.

– Se a Secom utilizasse como base o que a TV Globo recebeu da sua verba total ano a ano, o resultado seria desprezível do ponto de vista da desconcentração como defendido a partir do estudo. Em 2000 a TV Globo teve 29,8% do total da verba da Secom e em 2012 esse percentual foi de 27,5%. Neste número não estão incluídas as verbas para TV fechada, que eram de 2,95% em 2000 e passaram para 10,03% do total do meio TV em 2012. Nesse segmento, provavelmente a maior parte dos recursos também vai para veículos das Organizações Globo que ainda tem expressivos percentuais dos recursos para jornais, rádios, revistas, portais etc.

– Utilizando os dados da Secom também é possível chegar a conclusão de que em 2000, a TV Globo ficava com aproximadamente 370 milhões das verbas totais de publicidade do governo federal. Em 2012, esse valor passou a ser de aproximadamente 495 milhões.

– O secretário executivo da Secom também afirma que houve ampliação do número de veículos programados de 2000 para 2012, o que a Altercom reconhece como um fato. Essa ampliação foi significativa, mas no texto não é informado qual a porcentagem do valor total destinado a esses veículos que antes não eram programados.

– Por fim, no estudo o secretário parece defender apenas o critério da audiência quantitativa como referência para programação de mídia. Sendo que a legislação atual não restringe a distribuição das verbas de mídia ao critério exclusivo de quantidade de pessoas atingidas. Aponta, por exemplo, a segmentação do público receptor da informação e o objetivo do alcance da publicidade, entre outras questões. E é notório também que a distribuição dos recursos deve considerar a qualidade do veículo programado e a sua reputação editorial.

Considerando que a Secom está disposta ao diálogo, o que é bom para o processo democrático, a Altercom solicita publicamente e por pedido de informação que será protocolado com base na legislação vigente, os seguintes dados.

– A lista dos investimentos em todas as empresas da Organização Globo no período do estudo apresentado pela Secom (2000 a 2012).

– O número de veículos programados pela Secom ano a ano no período do estudo (2000 a 2012)

– Quanto foi investido por cada órgão da administração direta e indireta no período do estudo (2000 a 2012).

– Quais foram os 10 veículos que mais receberam verbas publicitárias em cada órgão da administração direta e indireta em cada meio (TV, rádio, jornais, revistas, internet etc) no período do estudo (2000 a 2012).

– A curva ABC dos veículos e investimentos realizados pela Secom. Ou seja, o percentual de verbas aplicadas nos 10 maiores veículos, nos 100 maiores e nos demais no periodo de 2000 a 2012.

– O que justifica do ponto de vista dos hábitos de consumo da comunicação a ampliação do percentual de verbas publicitárias de 2000 para 2012 no meio TV.

– O sistema e o critério de classificação e ranqueamento que estaria sendo utilizado pela Secom para programação de mídia.

A Altercom tem outras ponderações a fazer a partir do estudo apresentado, mas confiando na postura democrática da atual gestão avalia que os pontos aqui levantados já são suficientes para que o debate seja feito em outro patamar.

Reafirmamos nossa posição de que a distribuição das verbas publicitárias governamentais não pode atender apenas a lógica mercadista. Elas precisam ser referenciadas nos artigos da Constituição Federal que apontam que o Estado brasileiro deve promover a diversidade e a pluralidade informativa.

A Altercom também reafirma a sua sugestão de que a Secom deveria adotar o percentual de 30% das verbas publicitárias para os pequenos veículos de informação, o que fortaleceria toda a cadeia produtiva do setor da comunicação. E colocaria o Brasil num outro patamar democrático, possibilitando o fortalecimento e o surgimento de novas empresas e veículos neste segmento fundamental numa sociedade informacional”.

http://correiodobrasil.com.br/noticias/politica/globo-pede-a-lula-que-segure-manifestantes-e-a-ajude-a-combater-o-google/640493/