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FICHA TÉCNICA:
Título: Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá
Lançamento: 2007 (Brasil)
Direção: Sílvio Tendler
Duração: 89 min
Gênero: Documentário

RESENHA por David Rejes Rangel

O filme Encontro com Milton Santos – O MUNDO GLOBAL VISTO DO LADO DE CÁ de Silvio Tendler recupera parte da visão do importante geógrafo brasileiro.  Traçando um panorama geral do mundo, principalmente na relação entre os grandes centros econômicos e políticos em contraste com a periferia mundial, o diretor delineia aspectos urgentes das reflexões de Milton Santos para a transformação da situação vigente. Parte portanto de uma crítica já quase abandonada e inquestionada pela maioria dos intelectuais, insistindo necessariamente na questão da luta por um mundo mais justo. Essa crítica, apesar de periférica é urgente fundamentalmente para os que não possuem meios para fazerem-se ouvir, pois apesar de presentes nas ruas das grandes capitais e nas periferias, já não despertam solidariedade pelos que passam ao seu lado dia a dia.

Desconstrói portanto o mito da Globalização. Mito de que a integração comercial entre os países e o aumento tecnológico vivido nas últimas décadas trouxe satisfação das necessidades do homem. A necessidade que deveria ser combatida pela tecnologia é resultado de uma desigualdade cada vez maior, fruto da acumulação de capital possibilitada por essa tecnologia e integração comercial.

Nesse processo de desconstrução do mito da Globalização, o diretor, demonstrando o pensamento de Milton Santos, discute a aplicação prática do Consenso de Washington que se tornou a cartilha para a maioria dos países da América Latina, principalmente com as privatizações, a abertura para as multinacionais, que geraram subempregos combinados com um massivo desemprego.

Não obstante, trata ainda da urgente questão da fome, tema hediondo para um mundo que se considera civilizado e que assiste com indiferença o grande problema para a humanidade. Nesse sentido, assevera ser a questão da fome um problema de distribuição, e não de produção, isto é, não é necessário produzir mais alimentos, pois o produzimos em abundância, muito mais que consumimos, a questão é a distribuição desses alimentos que se concentram onde há abundância e não chegam onde há escassez. Milton Santos afirma que a questão da fome é uma escolha da humanidade, por convivermos tanto tempo com essa situação e não termos transformado essa situação.

A questão da privatização da água é outro tema de importante discussão, visto que há um esforço mundial de multinacionais pela privatização desse recurso natural indispensável ao homem, sem pensar do bem estar da humanidade, apenas buscando novos mercados que possibilitem acumular mais e mais capital.

Esse capital que tem seu livre tráfego defendido, assim como produtos e serviços, mas que restringe violentamente com mortes diárias o tráfego de pessoas entre os países fugindo da miséria em busca de um sonho no qual suas necessidades são supridas.

Nesse nosso modo de produção, o homem deixa de lado o antropocentrismo, abnega sua posição de centro do mundo, para dar lugar ao dinheiro, ao capital em seu estado puro. Essa nova forma de organizar o mundo que vem sendo implantada á algumas décadas é massivamente imposta pela ideologia vinculada a mídia.

Nesse setor, seis empresas controlam noventa por cento do mercado de mídia mundial. Isso resulta num controle quase exclusivo da mídia por um grupo pequeno de grandes empresários, que detém o monopólio da informação.

Essa informação vem ao povo, ao trabalhador empregado ou desempregado, estabelecido ou marginal, como notícia. Essa notícia muitas vezes é recebida como verdade, sem desconsiderar os interesses por parte dos transmissores. Ignora-se o processo de transformação do fato em notícia que resulta da interpretação do fato em si, tanto em níveis inconscientes quanto em níveis conscientes de forma inevitável.

Dado o fato de que essas notícias são criadas através da interpretação dos fatos por empresas que detém o monopólio da informação, resulta-se que as notícias carregam os interesses dessas empresas e dos empresários.

Controlando então a informação, esses empresários que estão na maior parte das vezes vinculados também á outros setores da indústria, dos serviços e do comércio, controlam o que chega ao trabalhador exercendo certo domínio do que se pensa.

Globaritarismo, conceito de Milton Santos designa justamente essa forma imposta de enxergar o mundo segundo a visão da mídia que tem interesse em reproduzir e aprofundar esse processo predatório de exploração mundo e das pessoas por um pequeno grupo de empresários.

O mundo então, não poderia ser analisado como uma unidade, mas de forma a melhor compreende-lo, poderíamos vê-lo como um grupo, mais especificamente um trio:

1) um mundo tal como nos fazem vê-lo, a globalização como fábula.

Esse mundo é o que nos é apresentado pelo monopólio midiático que nos informa segundo seus próprios interesses, quase sempre contrários ao da maioria da sociedade.

2) um mundo tal como ele é, a globalização tal como perversidade.

Esse mundo que Silvio Tendler tenta mostrar segundo a ótica de Milton Santos, nesse lúcido e urgente filme.

3) um mundo como ele pode ser, uma outra globalização.

Que é o mundo sonhado, desejado, e objeto da luta de Milton Santos durante sua vida. Um mundo que tem todas as capacidades técnicas e humanas para se reorganizar segundo o interesse e necessidade da maioria das pessoas.

E para fechar a análise do filme, encerramos com as palavras de Milton Santos quando questionado sobre a humanidade: “Estamos fazendo os ensaios do que será a humanidade. Nunca houve”.

(Licença Creative Commons)

Odeio os indiferentes

Publicado: novembro 27, 2011 em Atualidade, Política, Teoricos
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Os Indiferentes

Antonio Gramsci

11 de Fevereiro de 1917

Texto retirado do livro Convite à Leitura de Gramsci

Do Marxists

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que “viver significa tomar partido”. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.